
Lançado em 1956, o romance Grande sertão: veredas, do escritor mineiro João Guimarães Rosa, revela a saga do jagunço Riobaldo por um mundo em guerra. Nessa travessia, ele se vê atormentado pelo diabo e às voltas pela paixão por Diadorim. O ator Caio Blat interpreta Riobaldo e contracena com Luiza Lemmertz, que dá vida à paixão e ao tormento do jagunço. “Não podemos estar a serviço do Guimarães Rosa. Ele é um gênio. Nós não somos, mas estamos lado a lado”, afirma Bia.
Os atores dizem os trechos originais do romance. “Guimarães é inadaptável. Isso foi desesperador pra mim, mas acabou se tornando um trunfo. Trabalhei diretamente com o texto do livro”, explica Bia Lessa. A diretora assumiu o desafio dialogar com uma das obras mais complexas da língua portuguesa.
Nonada aparece repetidamente em Grande sertão. Essa palavra-chave inicia e encerra o romance, mas não finaliza a história. Nonada aparece como antônimo do símbolo do infinito, o último sinal gráfico do livro. “Você tem o sinal do infinito no final – o travessão e a nonada. Não tem fim”, destaca Bia Lessa.
A diretora chama a atenção para a dimensão do ser humano diante da natureza. Para Guimarães, ele não é mais importante do que plantas e pedras. “O homem se relaciona com plantas, animais, com a terra e a aridez. Guimarães é o primeiro autor que, de fato, pensa na ecologia de forma contemporânea”, observa. Atores interpretam tanto os personagens quanto bichos, cactos e pedras. “Os animais são tão importantes quanto Riobaldo. Isso nos leva a ampliar a questão teatral”, explica ela.
GAIOLA Não há representação, no sentido literal, mas um jogo cênico que exige do espectador. Não basta só olhar, é preciso querer ver – e é essa brincadeira entre olhar e ver que Bia busca em Guimarães. Para criar o formato híbrido entre espetáculo e instalação, ela recorreu a vários elementos cênicos. Os personagens aparecem em uma gaiola, potencializando o exercício do espectador de se posicionar para ver o que ocorre.
“A gaiola dificulta a visualização. Não deixa livre o olho do espectador, ele deve procurar e ver. Guimarães dizia: ‘Mire e veja’”, adianta a diretora.
A paisagem sonora é outro elemento fundamental da instalação. Há quatro camadas de sonoridades: o ruído que amplia o espaço, o som vindo de lugares amplos; a música autoral composta por Egberto Gismonti; as cantorias e rezas ligadas ao inconsciente coletivo; e, finalmente, o timbre das vozes do elenco. “A instalação invade a plateia. Não tem o lá e o cá”, resume Bia Lessa.
PROJETO ROSA ENCENADO
. Palestra
Com Bia Lessa, Oskar Metsavaht e Flora Sussekind. Quinta-feira (21), às 19h30. Entrada franca, com retirada de ingressos a partir das 18h30
. Espetáculo-encenação
Grande sertão: veredas. Direção: Bia Lessa. Com Balbino de Paula, Caio Blat, Daniel Passi, Elias de Castro, José Maria Rodrigues, Leonardo Miggiorin, Lucas Oranmian, Luisa Arraes, Luiza Lemmertz e Clara Lessa. Sábado (23), às 20h; domingo (24), às 16h e às 20h.
R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
>> Palácio das Artes. Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro. Informações: (31) 3236-7400 e www.fcs.mg.gov.br

Encarregado de interpretar Riobaldo, Caio Blat diz que Grande sertão: veredas inovou ao discutir o amor do jagunço por um homem. Para ele, Diadorim é um homem trans.
O que atormenta mais Riobaldo: a dúvida sobre a existência do demônio ou a paixão por alguém que ele julga ser outro homem?
As duas coisas juntas. A tentação, o desejo, é como se o amor proibido fosse armação do mistério. O próprio mistério do mundo. Riobaldo é homem espantado diante do mistério da vida. Diante da escassez, miséria e da guerra, ele tem sensibilidade absurda. Sempre à flor da pele. Homem espantado diante da vida. Acredita que é o mundo agindo para ensinar pra ele. Trabalha com o conceito da culpa pelo fato de o amor não se realizar. O tempo todo vive se perguntando se a culpa foi dele, como na lei do carma. Fez escolhas erradas, entrou na guerra de cabeça, matou muita gente. Tudo de ruim que ele vive é fruto de suas escolhas. Vive atormentado sobre se foi ele quem destruiu a possibilidade de amor.
Na atualidade, ainda é muito complexa a discussão sobre gênero. Com Diadorim, Guimarães já coloca essa questão. Sob as lentes da contemporaneidade, seria Diadorim um homem trans?
Tenho certeza disso. É um romance premonitório ao falar do amor sem gênero. Diadorim tem traços femininos, delicadeza e, ao mesmo tempo, a loucura e a violência masculina. Não tem gênero. Riobaldo fica louco, atraído e apaixonado por esse ser andrógino. Gênero é conceito antigo, e o amor não o respeita. Guimarães escreveu o romance há 50 anos e o país (ainda hoje) desrespeita e violenta os gays. Não aceita o amor livre. A proibição e o tabu são muito atuais.
Como se preparar para a fala do sertão, para esse dizer roseano? É um desafio dizer o texto de Grande sertão: veredas?
Um enorme desafio. Partimos de que o sertão é em toda parte. É metafísico. Pode ser o sertão de Minas, sertão da Bahia, periferia das grandes cidades ou o centro das grandes cidades, onde as pessoas estão em guerra e sozinhas. Estamos falando dos presídios, onde as pessoas estão abandonadas. Estamos falando das favelas. Temos respeito absoluto à palavra do Rosa. Não buscamos regionalismo. Buscamos a prosa do Rosa, que induz à melodia mineira, aos termos que não terminam, o próprio nome Diadorim. Existem termos e frases que exigem melodia mineira, é difícil fugir disso. Mas muitos trechos fazemos sem sotaque, o mais limpo, para dar a dimensão de que o sertão é qualquer lugar. O sertão é dentro de nós.
É muito disruptiva a ideia de que o ser humano tem o mesmo valor que animais, minerais e plantas. Vocês também interpretam seres inanimados, digamos assim. Como foi essa experiência?
Vi trabalhos anteriores da Bia com cenários lindos, terra e areia. Para o sertão, ela parte para o vazio, opta pelo vazio. A gente evoca o sertão, não o representa. O sertão é essa ecologia. O homem está sendo comido pelo bicho, comido pela terra, pelo vento. Tem uma cena muito bonita: Riobaldo comprova a existência do diabo quando um canivete cai no poço. No dia seguinte, ele vê que o poço roeu o canivete. O diabo está na água parada, que o corroeu. Estão na água os medos e angústias. Precisávamos evocar esses elementos sem representá-los. A terra, as plantas, os peixes e a água, sem usar (tais) elementos. Em outra cena linda, Diadorim e Riobaldo seguem na canoa. Só os corpos dos atores fazem o rio.
Imersão no SESC
Em 27 de junho, comemoram-se os 110 anos de nascimento do escritor João Guimarães Rosa. Para lembrar a data, o Sesc Palladium promove o projeto Imersão Grande Sertão, idealizado pelo músico e poeta Makely Ka. O evento será aberto hoje, às 18h, com o Café do sertão. O público stá convidado a degustar produtos de cooperativas da região do Mosaico Veredas/Peruaçu. A programação será encerrada no domingo (24). O Sesc fica na Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro.