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Vinte e cinco anos mais tarde, essa história é revisitada na série documental de quatro episódios Lorena. Dirigida por Joshua Rofé e produzida por Jordan Peele (diretor e roteirista vencedor do Oscar por Corra!), a produção da Amazon teve première em janeiro, no Festival de Sundance. Nesta sexta (15), entra no ar na plataforma de streaming Amazon Prime Video.
Mais do que retroceder no tempo e voltar ao episódio, a série pretende ampliar a discussão. Mostra como a imprensa sensacionalista se aproveitou de uma tragédia pessoal para ganhar audiência. Lorena (que hoje utiliza o sobrenome Gallo) afirma, desde sempre, que o ato intempestivo foi em decorrência de abusos psicológicos e estupros que sofria constantemente do marido. O caso, que na época poderia ter gerado um grande debate em torno da violência doméstica contra a mulher nos EUA, acabou virando piada nacional.
O caso teve dois julgamentos. No primeiro, John foi o acusado; no segundo, Lorena ficou no banco dos réus. Quando ele foi o réu, seu advogado proibiu que o julgamento fosse filmado. No caso dela, tudo foi televisionado. Contando com vasto material de arquivo, o documentário foi criado a partir de imagens da época e entrevistas atuais com os envolvidos. E não só o ex-casal Bobbitt, como também vizinhos, parentes, colegas de trabalho, médicos, socorristas, advogados, jurados. Quando é possível, o documentário justapõe imagens dos personagens ontem e hoje.
Em seus melhores momentos, Lorena mostra como o mundo de duas décadas e meia atrás era outro. Jornalistas que cobriram o caso se lembram de que a grande imprensa não usava o vocábulo pênis – durante a cobertura, o diário The New York Times publicou, pela primeira vez, a palavra na capa. Aliás, pênis nem sequer foi pronunciado pelos policias chamados para socorrer John, deixado na cama pela mulher, que pegou o carro e jogou o pedaço do órgão decepado no mato. Uma cena no primeiro episódio exemplifica a dificuldade que todos tinham em lidar com a história.
Enquanto John sofria uma cirurgia para reimplantação do órgão, os policiais que o atenderam sentaram-se no hospital com as pernas cruzadas e as mãos na frente da região genital, como se quisessem se autoproteger. Há ainda hoje certo desconforto em falar do caso abertamente. Muitos dos envolvidos na história sorriem nervosamente durante as entrevistas.
O caso Bobbitt antecipou os reality shows. Também serviu de aperitivo para o julgamento da década – de O. J. Simpson, em 1994, acusado de matar a mulher. Ou seja, na primeira metade de década de 1990, os EUA viram seus valores chacoalhados por casos que iam muito além dos atos em si.
John foi considerado inocente em um júri formado por nove mulheres e três homens. Já o júri de Lorena a considerou inocente, mas alegou insanidade, ou seja, ela não poderia ser responsabilizada por suas ações. Lorena passou por um período probatório de 45 dias em um hospital estadual e depois foi libertada. O casal se divorciou em 1995.
O lançamento de Lorena apresenta um retrato atual de um país ainda dividido. John Bobbitt, que chegou a atuar em filmes pornô 20 anos atrás, foi cabo eleitoral de Donald Trump. Já a ex-mulher, que quando conheceu Bobbitt mal falava inglês, hoje comanda a Fundação Lorena Gallo, voltada ao combate do abuso doméstico.
LORENA
A série documental com quatro episódios está disponível a partir desta sexta (15), no Amazon Prime Video