

Publicado na revista científica Science Translational Medicine, o estudo é considerado o primeiro grande experimento de eficácia e segurança de uma vacina profilática contra o vírus da hepatite C. O imunizante desenvolvido pela equipe liderada por Eleanor Barnes induz uma resposta mais intensa das células T, essenciais para o controle viral. Estudos anteriores em roedores e humanos mostraram que essas células têm um papel crítico no controle da infecção.
“Essa é uma forma relativamente nova de desenvolver vacinas. Normalmente, as existentes induzem anticorpos de catapora ou de rubéola, por exemplo”, diz Barnes. Em uma série de patógenos, como o da hepatite C e o do HIV, porém, essa estratégia simplesmente não dá certo. O pesquisador explica que isso acontece porque os anticorpos funcionam ao ter como alvo a parte de fora de um vírus. Mas, para o HIV e a hepatite C, essa é uma região muito variável. A estratégia de células T consegue atingir uma parte do vírus que é mais conservada. “A forma como estamos fazendo isso é usando vetores de adenovírus que foram desativados geneticamente e, por isso, não podem se reproduzir.”
O adenovírus é o causador da gripe comum a qual a maior parte dos seres humanos foi exposta. A nova vacina tira um componente do adenovírus e insere nele parte do vírus da hepatite C. Um dos problemas nessa estratégia reconhecido pela equipe é justamente o fato de a maior parte das pessoas já ter tido contato com ele — ou seja, há uma imunidade natural do organismo contra o patógeno. Para resolver essa situação, os pesquisadores usaram adenovírus de chimpanzés. “A quantidade de células T derivadas dali foi ainda maior que na primeira vacina”, diz Barnes. Essa explosão imune é o diferencial da vacina. “Alcançamos uma resposta de milhares enquanto até então era visto apenas centenas.”
Tratamento caro
Para Barnes, mesmo com o surgimento de novas e mais efetivas medicações, a necessidade de uma vacina se mantém. “Muitas pessoas devem ter ouvido falar recentemente que as novas drogas são maravilhosas e estão mudando o campo, mas os problemas com elas é que são muito caras”, argumenta. Segundo o pesquisador, os preços variam entre 30 mil libras esterlinas, no Reino Unido, e US$ 18 mil nos Estados Unidos por paciente. Outro obstáculo a ser ultrapassado são as longas semanas de tratamento.
“Elas também não protegem contra a reinfecção e podem estar associadas, em alguns cenários, à resistência viral. A vacina, ao contrário, pode proteger o paciente com uma ou duas doses para o resto da vida”, compara. Segundo o diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Fábio Mesquita, quanto mais próxima a comunidade científica estiver da vacina, mais próximo estaremos da erradicação da doença. “Se hoje a gente pode falar em eliminação da hepatite A, é por causa da vacina que introduzimos em 2014, assim como podemos falar de eliminação da hepatite B devido a uma vacina introduzida há 17 anos.” Por ser uma doença silenciosa, o diagnóstico precoce e até mesmo a estimativa real de pacientes atingidos pela hepatite C são complicadores de uma política pública de combate.
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Metade da previsão
Diferentemente da estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), que calculou cerca de 3 milhões de pessoas infectadas com o vírus da hepatite C no Brasil, os últimos dados do Ministério da Saúde apontam para uma incidência real de metade desse número: entre 1,4 e 1,7 milhão de brasileiros infectados. É menos que o imaginado, mas ainda muito acima do aceitável. A quantidade de indivíduos soropositivos no país, é a metade disso: 720 mil.