

A produtora cultural Nanda Miranda investigou como as pin-ups voltaram a fazer parte da construção do universo feminino no Brasil a partir dos anos 2000. “Percebi um uso frequente da pin-up na moda e na publicidade. A mulher contemporânea volta a esse lugar”, conta. A pesquisadora analisou como essa referência foi incorporada por artistas como Grazi Massafera, Eliana e Andressa Soares, a Mulher Melancia.
Como essa imagem voltou a ser ressignificada por artistas contemporâneas foi analisada na dissertação Imagens da mulher: das pin-ups à pin-upisação, defendida no programa de pós-graduação em comunicação social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Sob a orientação da professora Vera França, a pesquisadora investiga como a exibição do corpo está relacionada a valores sociais e ao que se concebe como adequado tanto para as mulheres como para os homens.
“Pode-se dizer que há no presente uma compreensão, tomada como natural, de que cabe ao corpo feminino o compromisso de se dar a ver, embora a história indique que a significação e representação da corporalidade da mulher, e também do homem, nem sempre seguiram esse modelo”, afirma Nanda. As pin-ups também foram parte da tese “Imagens da Mulher no Ocidente Moderno”, que será defendida por Isabelle Drummond no Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
Em inglês, pin up significa pendurar. No entanto, o termo passou a se referir a mulheres sensuais a partir do filme Pin-up girl , estrelado pela atriz estadunidense Betty Grable em 1940. “Essa é uma das versões. Alguns pesquisadores dizem que o termo já era usado antes informalmente”, diz. Dessa forma, a ideia de pin-up guardava uma dimensão de autonomia feminina, pois, como os homens no front, elas foram para o mercado de trabalho. As pin-ups também tiveram uma dimensão estética. Era preciso apresentar uma mulher atraente para os maridos que estavam na guerra. Ao longo dos tempos, no entanto, a dimensão emancipatória da imagem se perdeu e as pin-ups viraram sinônimo de sedução e um modelo de feminino.
Para Nanda, muitas vezes, quando as celebridades contemporâneas buscam essa referência ficam apenas no aspecto de reforço à beleza. “Perde-se a ideia de autonomia feminina. As pin-ups não são pensadas como representação de independência. Muitas vezes, são vistas até a partir da ideia de submissão.” A pesquisadora lembra que, no entanto, a partir dos valores e conceitos da época, as pin-ups podem ser entendidas como uma forma de deslocamento do papel imputado à mulher. Nesse sentido, a pesquisa tem um importante contribuição ao pensar como essas representações ajudaram a conformar o papel das mulheres na sociedade.
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A imagem da primeira mulher emerge na pré-história, mas se consolida na Grécia antiga e na tradição judaico-cristã. No período, foi construído arquétipo da mulher associado ao mal. Belas, elas eram responsáveis pelos males que afligem os homens. “Até mesmo a sua boa aparência era tomada como maléfica pelo arquétipo da beleza demoníaca, que conferia à figura da bela mulher a culpa por todos os males e fatalidades que pudessem acometer os homens.”
A representação da segunda mulher tem início com o movimento renascentista do século 15, quando a beleza passa a ser exaltada. Durante o Renascimento, começa a se construir a imagem da mulher como o belo sexo. A imagem da terceira mulher começa a se construir a partir das últimas décadas do século 20 e está relacionada às conquistas feministas, o direito ao voto, a ida para o mercado de trabalho, o controle sobre a reprodução, entre outras equiparações de direito. Nesse contexto, ao se falar de feminilidade, ganham força as imagens relacionadas às modelos e às celebridades.

MULHER HOJE

A pesquisa demonstra que as imagens das mulheres, nos diferentes momentos históricos, são “contaminadas “ por referências de períodos anteriores. Nesse sentido, a imagem da mulher contemporânea está em processo de construção e não passa apenas pelos aspectos estéticos, mas sobretudo por uma desconstrução de padrões de beleza. A mulher busca o reconhecimento da imagem pública. “Para além da estética, a mulher busca o direito de expressão, existência e reconhecimento”, diz.
Dessa maneira, Isabelle traça a gênese social das imagens. Uma visão não evolutiva, mas sim processual, em que ocorrem mútuas contaminações, continuidades, assimilações e rupturas entre essas imagens e linguagens.
