“A gente fica mordido, não fica?”, provoca o vídeo que surgia na time-line quase diariamente.
Milhares de compartilhamentos e marcações de amigos nos comentários da rede social construíram uma rede de admiradores em todo o país. Cru, primeiro trabalho de estúdio, tem apenas três faixas, mas já é suficiente para atrair centenas de fãs a cada show da turnê nacional.
“Você vê que o trabalho começa a dar certo quando viaja pelo Brasil inteiro tocando suas músicas e ouve as pessoas cantando junto, chorando junto, sentindo”, comemora.
Com a singeleza das gravações nasceu uma condição de cumplicidade entre ouvintes e músicos, acredita. “Nós da banda estávamos muito transparentes e certos do discurso que queríamos levar neste EP. Quando há proximidade e desconstrução, as pessoas se sentem integradas e o trabalho começa a ganhar proporções maiores. É bonito ver como todo mundo se entregou de forma leve e tranquila.”
"BICHA E PRETA"
Natural de Araraquara, interior de São Paulo, Liniker se identifica como “bicha e preta” e não reivindica pronome específico no tratamento, mas fala de si quase sempre no feminino. A discussão sobre a identidade de gênero, porém, não deve engolir a relevância das composições que ela produz com apenas 20 anos. “As pessoas têm mais é que aceitar que sou essa bicha, que não se define nem como homem nem como mulher. Estão mais preocupadas com isso do que com o motivo pelo qual vim, que é a música. Essa questão tem só uma resposta: aceitem”, resume.
“Nosso disco não é político, mas o ser humano é, por natureza, político.
O grupo surgiu no curso de história da Universidade de São Paulo (USP). “A faculdade rendeu para nós um grupo dinâmico de discussão artística, com amigos. A entrada na USP nos fez conhecer artistas de outros campos e a carência de se movimentar que havia em nós”, relata Assucena.
A troca de experiências com outros artistas no meio acadêmico ainda ampliou horizontes bastante íntimos das vocalistas. “A partir daí, começamos a discutir melhor nossa identidade de gênero. A arte foi a deusa que providenciou nosso modo de vida, o jeito que a gente é e sempre quis se revelar.”
DO CLUBE A GAL Colegas de turma, o mineiro Acerbi — ele responde pela cozinha do nome da banda — e as intérpretes rapidamente descobriram afinidades musicais. “O Rafa trazia referências de Clube da Esquina, Toninho Horta. Mas o grande fundamento da banda é o trabalho de Gal Costa, desde 1977 até 1983”, detalha Assucena.
Baiana nascida no sertão, a então universitária encontrou influências do estado natal na paulistana Raquel, que chegou a morar em Salvador à procura de oportunidades como cantora de axé. No disco de estreia, ambas têm o canto conduzido na maior parte por uma levada de blues.
“Algumas pessoas se surpreendem quando conhecem nosso trabalho. Como se fosse um espanto duas travestis gerarem uma obra nesse nível de lirismo, de elaboração estética”, afirma Raquel. “Por isso é importantíssima a questão da visibilidade. Nós assumimos nosso lugar pela sobrevivência, de nós e das nossas.”
"As bichas estão tomando conta"
"Está explícito em mim. Vou vivendo minha liberdade, tentando mostrar meu processo para que as pessoas se empoderem, se posicionem socialmente”, aponta Liniker. No caso de As Bahias, as cantoras carregam nas trajetórias pessoais o argumento. “Só de ser travesti e aparecer já é um ato político”, afirma Raquel.
Elas reconhecem o crescimento de uma corrente artística que faz questão de ser a voz de grupos tradicionalmente oprimidos. “Essa cena não está rolando só na música, mas também no cinema, na literatura. As bichas estão tomando conta mesmo, graças à deusa”, comemora Liniker.
“Silenciados por tantas vezes, temos uma ânsia que vem de anos e a gente agora vomita tudo sem ver em quem respinga. Não falamos só por nós, mas pela mulher preta, pela mãe solteira, pela bicha da favela, por todas as pessoas que são caladas. Quero falar pela minha mãe que é solteira e cuidou de dois filhos, por minhas amigas que sofrem preconceito e são objetificadas por ser negras”, afirma.
Para As Bahias, o sucesso de crítica do álbum Mulher consolidou posições que elas ainda hesitavam em assumir. “No início, não queríamos que falassem sobre sermos trans, queríamos que prestassem atenção somente ao disco. Mas o posicionamento é inevitável. É necessário falar do que precisamos conquistar para ontem”, diz Assucena. “A gente não deixou de sofrer na rua por causa do reconhecimento que conquistamos na música. Afinal, a maioria das travestis e transexuais ainda está confinada aos espaços de marginalização.”
Festa Divina Maravilhosa
Shows de Liniker e As Bahias e a Cozinha Mineira. Abertura com a DJ Black Josie. Sábado, 12 de março, a partir das 22h no Music Hall (Av. do Contorno, 3.239, Santa Efigênia). Ingressos a partir de R$ 60, à venda em www.sympla.com.br.