Ilustração de André Neves para Tom, livro inspirado em menino com problemas neurológicos (foto: André Neves/divulgação)
O título tem três letras. O livro, breves 50 páginas – com direito a reflexões sobre arte. A complexa história, apenas 30 linhas. Surpreendente joia da literatura brasileira acaba de ser lançada:
Tom (Projeto Editora), de André Neves.
O livro traz a história do menino intrigado com o irmão silencioso. Ele tenta adivinhar o que o mano está pensando. “Meus livros trazem o pensamento da infância, nunca digo que são para crianças, mas para a infância e voltados para todos os leitores”, avisa André Neves, escritor premiado pela poesia, criatividade e beleza de seu trabalho.
O recifense André Neves tem 39 anos. Mora em Porto Alegre e ilustrou cerca de 100 obras – 18 com imagens e textos criados por ele. “Posso dizer que os 18 que vêm pela frente serão diferentes dos 18 já lançados. Cada livro é único, não repito receita”, avisa. Ele ganhou prêmios literários respeitados, como o gaúcho Açorianos e o nacional Jabuti. “Faz tempo que confabulo imagens. Algumas ficam na imaginação, outras saem para os livros. Sou pura imagem, risco e rabisco. Só sei ser assim. Como se alma ilustração fosse”, escreve o autor no perfil publicado em confabulandohistorias.blogspot.com.
Tom cobrou muito tempo de André. Deu origem a tantas imagens além das publicadas no livro que gerou exposição, atualmente em cartaz no Centro Cultural Érico Veríssimo, em Porto Alegre. O artista pretende levar o livro e a mostra por todo o país.
AMIGO
O ponto de partida para Tom foi o filho de um amigo de André, portador de problemas neurológicos. “O autismo, a criança especial, fica forte na primeira leitura. Mas, com imaginação, podem-se criar outras histórias para o personagem: a curiosidade em relação a pessoas silenciosas, o irmão que não entende o outro, sentimentos não resolvidos. A história é muito aberta”, observa. O autor avisa: não se trata de um livro sobre crianças problemáticas.
“Fazer Tom foi mais necessidade artística do que só projeto de construção de um livro”, completa André Neves. O processo de criação o levou a se reinventar como ilustrador. A obra sintetiza um aspecto que o pernambucano trabalha com todo o cuidado: o uso de recursos gráficos que integrem bem texto e imagem, fazendo com que as duas linguagens se tornem dependentes.
“Busco sempre algo que transforme o leitor. Gosto de histórias bem contadas, que procurem caminhos para trazer a pessoa para dentro do texto”, conclui.
DUAS PERGUNTAS PARA...ANDRÉ NEVES, ILUSTRADOR E ESCRITOR
André Neves na exposição de seus trabalhos, em Porto Alegre (foto: Guga Marques/divulgação)
Como você vê a literatura brasileira para jovens leitores?
O Brasil tem tradição na área, grandes escritores e grandes ilustradores. Estamos a caminho de fazer livros que vão marcar a história da literatura. Falta estimular mais o gostar de ler. A situação melhorou, mas temos um caminho a percorrer.
Que autores admira?
Gosto da obra de Lygia Bojunga, da naturalidade com que ela fala de coisas profundas do ser humano, de forma criativa, envolvente e personagens jovens. Ler um livro de Bartolomeu Campos de Queirós é como ler um poema – sempre muito marcante. Temos também Leo Cunha, Fernando Paixão e Roseana Murray, além de grandes escritores que ficam bem para crianças: Manuel Bandeira, Mario Quintana e Cassiano Ricardo. Já os ilustradores contemporâneos são tantos que é até covardia citar só um.