“Quando fui fazer mestrado nos Estados Unidos, em 2003, percebi como minha formação era hermética. Estudamos os períodos (artísticos) separadamente. Só que Barroco, Clássico e Romântico estão de alguma maneira interligados, pois um é quase antagonista do outro. Imaginei que um livro poderia apresentar, de forma linear, esse desenvolvimento. Também adoro cronologias, construções. Então, pensei: se juntasse música a isso, poderia caminhar por pontos marcantes”, comenta Arakaki.
Foi um trabalho de ourivesaria. O maestro construiu enorme linha do tempo com informações e ilustrações sobre cada período, da Antiguidade até os dias atuais. O período clássico (1750-1800), por exemplo, ganhou quatro páginas. Na parte de cima são destacados os autores mais importantes da época. Na de baixo, os acontecimentos históricos relacionados a ela.
“Em 1759, Voltaire escreveu Cândido, obra-chave no Iluminismo, estilo literário que influenciaria a Revolução Francesa, em 1789. Na mesma época, temos Mozart e Haydn, que rompeu com o Barroco (período anterior ao Clássico). E também nasce Beethoven, que chegou a dedicar uma sinfonia (a Nº 3) a Napoleão Bonaparte e depois, quando ele se proclamou imperador, retirou a dedicatória. A Revolução Francesa influenciaria diversas democracias europeias”, explica Arakaki, explicando as ligações que o livro apresenta.
Tudo está ali de forma didática e resumida, um convite para que o leitor descubra uma ou várias partes da história. No verso, cada período é destacado com imagens, textos mais amplos e glossário de termos musicais. Há também dicas sobre filmes e músicas (essas vêm ao lado de alto-falantes com os respectivos links para o YouTube). O volume é artesanal. Para que linha do tempo tão grande se tornasse viável – “não há máquina para um livro de 11 metros” –, as páginas foram coladas a mão.
MINAS Quando o conteúdo atinge o século 18, Arakaki passa a dedicar um bom espaço tanto à história do Brasil quanto à música produzida no país. Descobrimos, nessa pesquisa, nomes de mineiros importantes do período colonial, como os compositores Manuel Dias de Oliveira, que atuou em Tiradentes, e Inácio Parreiras Neves, que iniciou sua trajetória em Ouro Preto. Na relação com a história mundial, acompanhamos Brahms e Carlos Gomes, ambos nascidos na década de 1830. Enquanto o alemão compunha sinfonias no Velho Mundo, por aqui o paulista se destacava no Romantismo.
“Esse é o livro que gostaria de ter lido quando estudante. Toda história tem vários pontos de vista, pois depende de quem conta. Com o livro, não quero esgotar o assunto. Minha intenção é nortear uma pesquisa, como uma espinha dorsal da história”, acrescenta Arakaki.
SEM LEI A história da música clássica através da linha do tempo é edição independente. O livro foi produzido com recursos próprios do maestro, “sem patrocínio, sem lei de incentivo, sem editora por trás”. Além do volume, com tiragem inicial de 1 mil exemplares, Arakaki criou exposição e palestra, que podem ser apresentadas em diferentes formatos.
O projeto ganhou força porque o autor atua em concertos didáticos desde a época em que era regente-assistente da Orquestra Sinfônica Brasileira (formação que ele integrou antes de chegar à Filarmônica, em 2011). “Há boa bibliografia em português, tenho acesso a ela porque reuni o material durante a minha vida. Mas (para o leigo) é difícil esse acesso, muita coisa está com tiragem esgotada”, comenta. Para sua pesquisa, Arakaki encontrou amplo material na Academia Brasileira de Música (ABM), no Rio de Janeiro.
O início do projeto – “que estava me tirando o sono, pois o livro ficava na minha cabeça” – foi solitário. Envolvia apenas o maestro e a mulher, Analine Arakaki. À medida que o conteúdo foi sendo desenvolvido, outras pessoas colaboraram com a empreitada. A designer Renata Gibson brigou muito com ele por causa da quantidade de informações. Os professores Eli-Eri Moura e Wilson Guerreiro Pinheiro, da Universidade Federal da Paraíba, assumiram a revisão. Decano dos maestros, Isaac Karabtchevsky colaborou com entrevistas para a edição. Já Edino Krieger, atual presidente da ABM, foi como um padrinho do projeto.
“Acabei aprendendo muita coisa com esse livro”, diz Arakaki, que, ao começar o projeto, pretendia “esvaziar a cabeça e realizar um sonho”.
• TALENTOS DO BRASIL
Além de destacar a obra de notáveis como Carlos Gomes e Ernesto Nazareth, o livro chama a atenção para autores menos conhecidos
» Caetano de Melo de Jesus (1700-1765)
Padre, compositor, maestro e teórico musical, possivelmente baiano, autor do importante tratado de música Escola de canto de órgão (1752)
» Francisco Gomes da Rocha (1745-1808)
Mineiro, fagotista e timbaleiro do Regimento dos Dragões d’El Rei, onde foi colega de Tiradentes
» José Maurício Nunes Garcia (1767-1830)
Padre, professor, maestro e compositor carioca descendente de escravos. Calcula-se que tenha composto mais de 400 obras – 240 foram catalogadas
» Francisco Manuel da Silva (1795-1865)
Compositor, maestro e instrumentista carioca, foi o autor da melodia do Hino Nacional Brasileiro (1831)
» José Maria Xavier (1819-1887)
Padre mineiro, compositor de música sacra, foi muito admirado por dom Pedro II, que considerou sua obra a melhor da produção de Minas
» Elias Álvares Lobo (1834-1901)
Professor, maestro e compositor paulista, criou Noite de São João. Com libreto de José de Alencar, essa ópera foi a primeira escrita em português e estreada no Brasil
A HISTÓRIA DA MÚSICA CLÁSSICA ATRAVÉS DA LINHA DO TEMPO
• De Marcos Arakaki
• R$ 139
• À venda em www.lojaclassicos.com.br e linhadotempomusica@gmail.com