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Em BH, Antonio Fagundes participa do projeto Sempre Um Papo

O primeiro contato que Antonio Fagundes teve com o teatro “foi uma coisa muito bonita”. Ele devia ter por volta de 12 anos e estava no colégio em que estudava em São Paulo quando, de repente, escutou um barulho vindo da quadra de basquete. “Ouvi uma confusão lá e fui dar uma olhada. Tinha um monte de caixas, de gente mexendo, tirando coisas da caixa. Fui me aproximando, e era um grupo de teatro. Eles estavam montando um palquinho para fazer um espetáculo à noite, na quadra de basquete, porque o teatro do colégio não estava pronto”, relata.


Fagundes tratou de ajudar a trupe e ganhou um ingresso para assistir à montagem. Escolheu uma posição privilegiada. “Fiquei numa rampa e tive uma visão do teatro.
Eu via o palco, via o espetáculo, mas dava para ver um pouco das coxias, troca de roupas, aquela coisa e tal... Dava para ver a plateia inteira. Foi uma visão realmente encantada para mim, porque eu tive uma visão completa do teatro! A peça era O doente imaginário, de Molière”.


Esse relato está no livro Antonio Fagundes – No palco da história: um ator (Perspectiva), de autoria de Rosangela Patriota, professora e pesquisadora na área de teatro. É o primeiro livro feito no Brasil sobre o ator, nascido em abril de 1949, no Rio de Janeiro, mas radicado em São Paulo. “Acho que aquele episódio do meu primeiro contato foi decisivo e marcante para minha vida, sobretudo para a minha visão sobre o teatro. Foi determinante para eu ter esse ponto de vista abrangente”, diz Fagundes, que estará na noite desta segunda (3) no auditório da Cemig, em Belo Horizonte, ao lado de Rosangela Patriota, para debater com o público do Sempre um Papo.


Quem pensa que na leitura vai se deparar com intimidades de Antonio Fagundes se engana. Alguns fatos de sua biografia fora dos palcos são citados, mas é na carreira do ator que se concentra a escritora.

O projeto, diz ela, nasceu por acaso, enquanto ela se dedicava a escrever o livro O Brasil da resistência democrática: O espaço cênico, político e intelectual de Fernando Peixoto, sobre o escritor, tradutor, ator e diretor teatral falecido em 2012. “Foi o próprio Fernando quem me sugeriu falar com o Fagundes para este livro, que ainda é inédito. Isso foi em 2002. No decorrer da conversa, Fagundes citou a Companhia Estável de Repertório, grupo de teatro que ele comandou nos anos 1980. Foi ali que comecei a perceber que poderia fazer um livro sobre a companhia”, diz Rosangela, que é autora de Vianinha: um dramaturgo no coração de seu tempo e A crítica de um teatro crítico.

ANÁLISE A ideia acabou tomando outros rumos, e a escritora decidiu fazer um livro mais amplo. “Se eu falasse apenas da Companhia Estável, o livro ficaria manco. A trajetória dele merecia uma análise mais profunda, porque se trata de um dos principais atores brasileiros. Mas o engraçado é que, embora ele seja um ator que viaja o Brasil inteiro com seus espetáculos há décadas, ainda há milhões de brasileiros que não conhecem Antonio Fagundes como homem de teatro”, observa.


Fagundes, que atualmente está em turnê com o espetáculo Baixa terapia, já apresentado na capital mineira, foi receptivo à ideia de Rosangela Patriota.

“Ela fez um grande painel do teatro brasileiro e da cultura brasileira ao longo de 52 anos, que é o período da minha carreira, e contextualizou minha trajetória dentro de tudo isso”, diz. O ator considera o marco inicial de sua vida artística a peça Farsa com cangaceiro, truco e padre, encenada em 1966. “Foi o primeiro cheque que recebi, por isso conto a partir dali. É um momento importante do livro, porque o começo (da carreira) foi logo depois golpe militar, e a Rosangela aborda esse momento, como também a época das peças do Arena, da resistência à ditadura.”


O volume se concentra no trabalho de Antonio Fagundes no teatro, que ele considera a “pátria do ator”, mas não deixa de citar sua atuação no cinema (Pra frente Brasil, Villa-Lobos - Uma vida de paixão, Deus é brasileiro) e na televisão (O dono do mundo, Renascer, O rei do gado, A viagem, Dois irmãos, Vale tudo). Esta última está sendo reprisada no canal Viva. “Ainda não tive tempo de assistir à reprise, mas conheço a novela a fundo e me chama a atenção como ela é mais atual do que nunca. E isso é triste. Já se passaram 30 anos, e o Brasil não muda”, lamenta o ator.


O lançamento em BH, com debate, se diferencia das sessões de autógrafos realizadas no Rio e em São Paulo. “Acho muito interessante debater com as pessoas. Isso já é uma prática ao fim dos meus espetáculos.

A gente sempre abre a conversa com a plateia. Enriquece a discussão”, diz Fagundes.

Sempre Um Papo com Rosangela Patriota e Antonio Fagundes

Nesta segunda (3), às 19h30, no auditório da Cemig (Rua Alvarenga Peixoto, 1.200, Santo Agostinho). Entrada gratuita por ordemde chegada. Mais informações: (31) 3261-1501 e www.sempreumpapo.com.br.

 

Antonio Fagundes – No
palco da história:um ator

Autora: Rosangela Patriota
Editora Perspectiva
Páginas: 488
Preço: R$ 84

 

 

três perguntas para... Rosangela Patriota escritora

 

1 Qual foi o maior desafio desse projeto?
Infelizmente, não pude ficar por conta exclusivamente deste projeto, porque tenho outras atividades. Sou professora universitária, tenho orientandos, banca e acho que, por isso, ele demorou tantos anos para ser concluído, já que começou em 2002, mas foi feito de forma intermitente. Como se tratava do primeiro livro sobre o Antonio Fagundes, que é uma figura de extrema importância para a cena cultural brasileira, o desafio também foi fazer algo que não resvalasse em uma biografia tradicional. Pela minha formação, seria um texto de pesquisa, de natureza acadêmica, mas, ao mesmo tempo, acessível.

2 Como foi a relação de vocês no processo de feitura do livro? Ele deu palpites?
Quando finalmente decidi como seria a estrutura do livro, liguei para ele. E ele disse que não queria saber,  porque confiava tanto em mim que tinha certeza de que tudo ia sair benfeito. Fagundes só foi ter contato com o livro quando eu o concluí.

Isso é algo muito importante de frisar. Apesar de ser um monumento do teatro, da TV e do cinema, ele foi de uma generosidade e de um respeito enormes ao trabalho intelectual. Confiou plenamente.

3 A imagem que você tinha de Fagundes mudou depois de ter escrito o livro?
Já tinha assistido a muitas de suas peças, conhecia o trabalho dele na televisão, mas só com esta pesquisa é que fui realmente entender a relevância dele para o teatro, para as artes. Com esse trabalho, espero que as pessoas possam enxergar, assim como eu enxerguei, que um ator também tem uma grande obra. Não só o diretor ou o autor. E acho que consegui dar uma visibilidade importante à obra desse homem de cultura. Muito mais do um ator, Antonio Fagundes é um homem de cultura

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