
O livro se inspira na ação de 15 articuladores do projeto Aluno presente, da Associação Cidade Escola Aprendiz, para trazer de volta às salas de aula crianças que a miséria e o caos familiar “expulsaram” do colégio. Os contos se basearam em relatos de integrantes da equipe de 70 profissionais que percorreram 161 bairros e 855 favelas do Rio de Janeiro, por três anos, batendo de porta em porta para encontrar 20 mil meninos e meninas de 6 a 14 anos fora da escola.
No Brasil, 2.486.245 crianças e adolescentes de 4 a 17 anos estão excluídos das salas de aula. O livro de Luiz Eduardo é um antídoto à crescente indiferença a números assim. Pouco a pouco, vamos nos anestesiando contra estatísticas do caos. Porém, aqui não há como não torcer, de coração apertado, para que Mariana dê um jeito de resolver o caso do garoto que encontra num beco da Favela do Cajueiro. “Onde está a sua mãe? O menino cala-se. Onde você mora? Eu não moro, ele diz.
Pedro foi expulso da escola depois de atirar mesa e cadeira na professora. Quando Julia tentou conversar com o menino, no Morro do Gavião, quase levou um prato na cabeça. “Ele continuou vindo, mas abaixou a mão quando a mãe gritou. Eu o vi, então, como criança e o abracei com força. Ficamos ali abraçados. Comecei a fazer carinho nas costas dele e ele desabou a chorar, chorar, chorar.” E lá foi Julia atrás de terapia para Pedro no projeto social de uma igreja. No Morro da Chaleira, Jacqueline virou mãe aos 14 anos – depois de dois abortos. Denise ajudou-a a voltar para a escola.
Luiz Eduardo Soares mostra que dá pra encarar o tão propalado “Brasil que não tem jeito”. Seu objetivo é romper o confortável paradigma da “naturalização” da tragédia social, até considerada parte da paisagem nacional. As crianças daqueles 15 contos voltaram para a escola.
Antropólogo e um dos principais especialistas em violência urbana do país, Luiz Eduardo dialoga com corações e mentes em vários livros que lançou. É um dos autores de Elite da tropa, que deu origem a Tropa de elite – feliz contribuição do cinema à discussão sobre a criminalidade e a corrupção no Brasil. Tomara que algum diretor talentoso adote Vidas presentes. O livro dá um belo filme mostrando que este país tem jeito sim. Graças a mentes e corações determinados a cumprir sua obrigação.
VIDAS PRESENTES
. De Luiz Eduardo Soares e Francisco Maringelli (gravuras)
. Projeto Aluno Presente
. 124 páginas
. Lançamento terça-feira (22/8), às 19h30, no Projeto Sempre um Papo. Auditório da Cemig (Rua Alvarenga Peixoto, 1.220, Santo Agostinho).